Fantasias de até R$ 60 mil: comunidade furry busca formas de expressão no interior de SP
Animais com características humanas fazem sucesso em animações e grandes produções. Na subcultura furry, esse é o ponto de partida para criar e interpretar personagens, chamados de fursonas, que permitem aos participantes se divertir e explorar diferentes formas de expressão.
🐺 Ser furry não significa acreditar que é um animal. Os integrantes dessa comunidade são pessoas que adotam e interpretam personagens antropomorfos — ou seja, que combinam características de animais e humanos. Na região de Campinas (SP), os furries trocam experiências em fóruns online e em encontros, chamados de meets.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp
Paola Susana Mendoza Champi e Paulo Pessôa de Andrade Neto, pesquisadores e integrantes da comunidade furry em Campinas (SP), explicaram ao g1 que uma fursona pode funcionar como uma espécie de alter ego e ajudar algumas pessoas a experimentar novas formas de expressão.
“É uma desculpa para você sair do seu personagem pessoa, que você tinha, da sua máscara social, e experimentar talvez outras máscaras sociais, outras personalidades que, até então, você não estava livre para explorar”, explicou Paola.
⚠️ Embora haja popularidade na ficção, quem faz parte da comunidade furry nem sempre é bem recebido na vida real. Furries ouvidos pelo g1 relataram situações de preconceito e estranhamento dentro da própria família, em grupos religiosos e na internet.
Afinal, o que é ser furry?
Furry, que vem do inglês “peludo”, é o termo usado para descrever pessoas que interpretam personagens que cedem características humanas – como falar, andar em duas pernas ou expressar emoções – a animais, criaturas mitológicas e até alienígenas.
➡ O movimento surgiu nos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, ligado a fãs de ficção científica e RPG. No Brasil, chegou principalmente pela internet nos anos 2000, por meio de fóruns online e blogs.
As fursonas podem fazer parte de alguma produção já existente ou serem criadas pelos próprios integrantes. As fantasias usadas para representá-los, conhecidas como fursuits, não são obrigatórias.
Algumas pessoas criam uma fursona e nunca usam uma fursuit. Para alguns, a personagem é uma criação artística e uma forma de diversão; para outros, pode ter um significado pessoal e ajudar a viver novas formas de expressão.
“No nosso caso [Paola e Paulo], a gente não tem essa caracterização, a gente tem só os personagens no qual a gente desenha. Eu acho que o nosso processo, como a gente observa os nossos personagens, elas acabam sendo mais como um alter ego”, disse Paola.
🔍 Segundo os entrevistados pelo g1, a comunidade também se tornou um espaço de convivência e aceitação para diferentes grupos se expressarem e interagirem com menos pressão e julgamento, como pessoas LGBT+ e neurodivergentes.
Mais que um personagem
Para alguns integrantes da comunidade furry, a fursona vai além de um personagem: ela pode ajudar a explorar características que nem sempre aparecem no dia a dia.
É o caso de Marcelo Macedo, de 44 anos, de Paulínia (SP). Em meio à rotina estressante do trabalho corporativo, ele criou Stan, um tubarão musculoso que representa a liderança e a confiança. Para ele, o personagem também surgiu como uma forma de trabalhar questões relacionadas à própria imagem.
“Eu acabei optando por um tubarão […[ mais musculoso, mais bombadão, né? […] Eu acho que nem se eu ficar cinco anos numa academia eu vou consegui um corpo com uma estrutura mais atlética? Foi outra característica que eu gostaria de ter, que eu acabo vivendo isso hoje também em cima do Stan”, explicou.
Marcelo levou essa experiência para a terapia após um divórcio. Durante o tratamento, também trabalhou para que Stan deixasse de ser um personagem silencioso e passasse a se comunicar, algo que refletia uma dificuldade que ele próprio enfrentava.
Karolayne Zem, de 26 anos, de Piracicaba (SP), criou Shira, uma loba-do-Ártico, aos 12 anos.
Redes sociais
Karolayne Zem, de 26 anos, de Piracicaba (SP), criou Shira, uma loba-do-Ártico, aos 12 anos. Tímida durante a escola e a faculdade, ela encontrou na personagem e no anonimato proporcionado pela fursuit uma forma de se expressar, interagir com outras pessoas e produzir vídeos para a internet.
Em Campinas, Vinícius Amon, de 25 anos, criou Asher, uma pantera-negra que funciona como seu alter ego. Segundo ele, embora seja mais sério e reservado no cotidiano, encontrou na comunidade um espaço para mostrar um lado mais extrovertido, comunicativo e brincalhão.
“A gente vive uma magia. Não é que as pessoas não gostam de ser quem elas são, mas ali é um meio das pessoas realmente fugir da realidade mesmo, encarnar naquele personagem e se divertir naquele momento”, disse Vinícius.
Segundo Gabriel, a criação da fursona envolve o mecanismo de projeção. De forma inconsciente, a pessoa projeta no personagem características suas que considera positivas, negativas ou aspectos que ela sequer percebe que tem.
“Qualquer método criativo que a gente possa usar para se autoconhecer, se autodescobrir e trabalhar as nossas questões é sempre muito interessante”, explicou o psicólogo.
Fursuits podem custar R$ 60 mil
O morador de Campinas (SP) Vinícius Amon, de 25 anos, já ganhou prêmios de cosplay com fursuits complexas e articuladas.
Arquivo pessoal
A comunidade movimenta um mercado próprio, principalmente na produção de fursuits e de artes gráficas.
🔍 As fantasias são feitas de forma artesanal e podem custar de R$ 1 mil a R$ 20 mil no Brasil. Quando encomendadas de profissionais estrangeiros, os valores podem ultrapassar R$ 60 mil.
Os trajes também podem ter estilos diferentes. Vinícius, por exemplo, tem uma fursuit do Rocket Raccoon, de Guardiões da Galáxia, com aparência mais realista, boca articulada e olhos que lembram os de um animal. Com essa fursuit, Vinicius já chegou a receber prêmios de cosplay.
Ele também tem uma fantasia de Legoshi, personagem do mangá e anime Beastars, com visual inspirado na animação.
Além das fantasias, artistas e outros profissionais também encontram uma fonte de renda nesse mercado, com serviços como ilustrações, modelagem em 3D e confecção. Karolayne, por exemplo, trabalha com comissões de arte para integrantes da comunidade.
Acolhimento nas ruas X preconceito
O morador de Campinas (SP) Vinícius Amon, de 25 anos, já ganhou prêmios de cosplay com fursuits complexas e articuladas.
Arquivo pessoal
Apesar da recepção positiva em alguns espaços, integrantes da comunidade furry também relatam situações de preconceito e desinformação. Em Campinas, os furmeets — nome dado aos encontros dos furries — costumam ocorrer em locais públicos, como o Parque do Taquaral.
Segundo os adeptos da subcultura, quem passa pelo local costuma reagir com curiosidade, carinho, pedidos de fotos e abraços ao encontrar pessoas usando fursuits.
“Quando a gente está em lugares públicos […] as pessoas tendem a observar, tendem a gostar, tendem até a querer participar, chegar junto lá, tirar foto, levar o filho, deixar o filho tirar foto também”, contou Marcelo.
Porém, a experiência pode ser diferente. Vinícius e Marcelo relatam que comentários preconceituosos e informações falsas sobre a comunidade fazem com que algumas pessoas tenham receio de se identificar como furry.
“As pessoas tendem a ter um medo daquilo que elas não conhecem e um preconceito com o que elas não sabem do que se trata”, avaliou Marcelo.
Marcelo conta que já enfrentou resistência de familiares e de pessoas de seu antigo círculo religioso por participar da comunidade.
“Dentro do meu próprio ambiente familiar, eu enfrento esse tipo de preconceito, tá? […] eu também participei muito tempo de igreja evangélica. Quando o assunto cai nisso, com certeza é uma coisa que não é muito bem vista ou que as pessoas preferem não comentar muito”, relatou.
Já as famílias de Karolayne e Vinícius inicialmente estranharam o hobby, mas passaram a apoiá-los depois de conhecer melhor a atividade. “Ao longo do tempo eles acabam gostando de até ver meus vídeos, ver as fotos dos eventos”, contou Karolayne.
Por enfrentar essa rejeição externa, o psicólogo Gabriel acredita que o grupo torna-se livre de julgamentos sociais ou morais.
“É um grupo que sofre muito preconceito na internet. Então acho que acaba sendo um grupo que, por conta dessas questões, é muito aberto para aceitar quem você quer ser” , afirmou.
Furries e therians: qual é a diferença?
As subculturas furry e therian costumam aparecer juntas nas redes sociais e em eventos, mas representam experiências diferentes. A proximidade entre as duas comunidades pode gerar dúvidas sobre o que caracteriza cada uma e por que elas compartilham alguns espaços.
A principal diferença está na relação que cada um estabelece com os animais.
os furries se interessam por personagens antropomórficos, que misturam características humanas e animais. Esses personagens podem ser usados para diversão, criação artística, interação social ou como uma forma de explorar diferentes aspectos da personalidade.
já os therians relatam sentir uma conexão profunda com um animal específico e consideram essa experiência parte de sua identidade ou espiritualidade. Essa relação também pode aparecer com movimentos inspirados no comportamento do animal.
Enquanto o furry se interessa por personagens antropomórficos e pode interpretá-los, o therian tem uma conexão profunda com um animal específico, que pode se manifestar por meio de movimentos e comportamentos associados a esse animal.
O psicólogo clínico Gabriel Rameh, que estudou a comunidade furry durante a graduação na PUC-SP, explicou que a humanidade tem uma relação histórica e intrínseca de atribuir significados a animais e de misturar características humanas e animais, algo presente em mitologias do mundo, como nos deuses com cabeça de animal.
“A simbologia dos animais está presente em toda a nossa história e acho que quando a gente pega isso em relação à comunidade furry é como se fosse uma forma moderna de fazer isso. Ao invés de você criar uma mitologia, você está criando personagens próprios, uma mitologia pessoal mesmo, de certa forma”, explicou Gabriel.
Apesar das diferenças, eventos furry costumam ser frequentados por therians. Segundo Paulo, esses encontros também são vistos como espaços seguros.
“Eles começaram a frequentar esses espaços também por ser um espaço seguro, onde eles podem estar ali mostrando a sua conexão animal [e] podem performar do jeito que eles se sentem mais à vontade”, disse Paulo.
VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região
Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.
Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/09/13/com-fantasias-de-ate-r-60-mil-comunidade-furry-cria-personagens-e-busca-novas-formas-de-expressao-em-sp.ghtml
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/g/I/Tt1zonTb2fLnvXgpcTkg/3.png)





